|
UPCYCLING
by Valdir Medori
Dois de fevereiro de 1990 (a data é importante). Dr. Pratt, cientista
para quem eu trabalhava como assistente no Instituto de Pesquisas e
Tecnológicas de Londres havia me convidado para um chá, no final daquela
tarde, em sua residência.
Cheguei pontualmente às cinco. Dr. Pratt abriu a porta vestindo um longo
camisolão cor de abóbora.
- Desculpe os trajes. Estava praticando meditação védica.
- Não sabia que o senhor era um adepto da ioga védica.
- Essa é a chave da ciência, rapaz!!! A chave da ciência... Café ou chá?
Nos sentamos em sua sala de estar. O cientista estava estranhamente
eufórico e ansioso, como se quisesse dizer alguma coisa mas procurava o
momento certo. Conversamos sobre alguns assuntos de trabalho, problemas
no laboratório e com muita destreza e tato, Dr. Pratt conduziu a
conversa para o seguinte tema:
- Boris Karloff. Você assistiu o célebre filme "Frankenstein"?
- Claro. Um clássico.
- Mas aposto que você não se lembra do ator que interpretou o Doutor
Frankenstein, se lembra?
- Não, realmente eu não lembro... Só lembro do Karloff mesmo,
interpretando a criatura.
- Todo mundo só se lembra da criatura. O Karloff nasceu para ser a
criatura...
- De fato...
- Você acredita que se pode revivescer um corpo morto, como na estória
de Mary Shelley?
- Veja bem, doutor, diante de tudo que nós estudamos e a experiência que
temos em laboratório, acho bastante difícil. Para ser franco, acho
impossível.
- Realmente, daquela forma como o Doutor Vitor Frankenstein reanimou a
criatura seria impossível.
O cientista levantou-se e escreveu numa pequena lousa que tinha
pendurada na parede:
Energia elétrica ≠
Energia vital.
- Esse é o 'X' da questão. É isso que a ciência não admite: a energia
vital como uma energia isolada.
- É realmente uma visão um tanto controversa.
- É uma visão muito clara.
- Suponho que a meditação védica tenha lhe dado essa clareza.
- Perfeitamente. - Fez um sinal com a cabeça - Me acompanhe.
Segui o Dr. Pratt até a cozinha, onde havia um enorme freezer. Ele
sorriu:
- Por favor, abra aquele freezer.
Quando abri, dei um grito.
- Jesus Cristo!!! O que é isso!?!
Ele respondeu calmamente:
- É o Boris Karloff.
- Eu sei, mas... O que ele está fazendo no seu freezer?
- Ele está aí desde o dia 23 de fevereiro de 1969. 21 dias depois da sua
morte eu o desenterrei e, desde então, espero ansiosamente por essa
data.
- Essa data de hoje? Dois de fevereiro de 1990?
- Isso mesmo. Precisamente 21 anos após a sua morte. A meditação védica
me deu um panorama claro de como se comporta a energia vital depois que
desencarna. E o mais importante, de como ela volta.
- Você está querendo me dizer que vai revitalizar Boris Karloff?
- Exatamente.
- Como?
- Acompanhe meu raciocínio: as energias vitais vem e vão. Na verdade vão
e 21 anos depois voltam. Eu descobri - através da meditação védica,
evidentemente - que após esse período "morto" em que a energia integra
um conglomerado formado por todas as energias vitais sem corpo do
universo, ela se desprende e fica encapsulada durante um período de 266
dias, em uma espécie de caixa, até ser liberada e renascer, da forma que
nós conhecemos.
- Reencarnação?
- Isso mesmo. A energia vital sai de um corpo e volta em outro 21 anos
depois.
- E nesse período em que está sem corpo ela integra um campo energético?
- Um conglomerado cósmico, até se desprender e se recolher dentro de uma
caixa preparatória para reencarnar.
- Compreendo, mas se as coisas forem do jeito que está me dizendo, há um
outro corpo esperando a energia vital do Boris Karloff, não é mesmo?
- Que infelizmente nascerá sem vida, se a nossa experiência der certo.
- E como será essa experiência?
- Veja bem. Como já disse, a energia vital de Boris Karloff está
aprisionada em uma caixa esperando o momento do parto. Existe uma forma
de abrir essa caixa antes do previsto e, abrindo essa caixa, a energia
de Boris irá procurar instintivamente por seu corpo anterior. Se não
encontrar, volta a compor a energia do cosmo, se encontrar... O sonho do
Dr. Frankenstein se realizará.
- E como se abre essa caixa?
- Através de uma senha tonal composta de vozes captadas na atmosfera.
Levei anos para decodificar essa senha e mais uma eternidade para
capturar os tons certos que flutuam em torno de nosso planeta.
- Inacreditável.
- Você pode me ajudar com os preparativos?
Levamos o corpo do ator até a sala de meditação do Dr. Pratt. Era uma
sala circular com algumas almofadas no chão. Em um lado, já instalado,
estava um gravador de fita de rolo. Minha função era operar o gravador.
Colocamos o corpo no centro da sala. O cientista então sentou-se em
posição de lótus próximo a cabeça de Karloff. Através da meditação, o
doutor localizaria a caixa e seus ouvidos fariam um canal sonoro entre a
sala védica onde estávamos e o universo, revelando a chave que
libertaria a energia vital do ator.
Começamos. Doutor respirava vagarosamente. Estava em transe. Num dado
momento ele fez um pequeno sinal com o indicador direito, era o momento
de acionar o gravador. Vozes incompreensíveis começaram a soar. Vozes em
diversos tons.
Senha concluída. Espera. Alguns minutos depois Doutor Pratt volta de seu
transe com um sorriso majestoso.
- Deu certo? Perguntei.
O Doutor não respondeu, mantendo o sorriso apenas apontou o queixo.
Então eu pude ver os olhos da criatura se abrir, vagarosamente. Boris
Karloff voltava a vida.
Naquele dia 02 de fevereiro de 1990 nascia a projeto de reencarnação no
mesmo corpo.
A Ciência tradicional ignora essa prática.
Boris Karloff vive hoje em Itaparica. Trabalha em um quiosque de água de
coco e é bastante feliz. |