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NEONERD
by Carlos Relva

- Estamos a uma distância segura da Terra, senhor. Aguardamos sua ordem para início dos testes com o novo gerador de antimatéria.

O doutor Jeno "Neonerd" Tapoulos sempre exagerava nas formalidades. Somos amigos de longa data, desde os tempos de faculdade, e ele não precisava ser tão protocolar comigo. Aliás, quem lhe deu o apelido "Neonerd" fui eu. Ele sempre gostou de colecionar antigas "nerdices" e apresentá-las sob nova roupagem.

Quanto ao teste, muitos especialistas acreditavam que o novo e potente gerador de antimatéria era perigoso. Por isso, tomamos o cuidado de testá-lo em uma nave espacial, longe da Terra. Neonerd, ao contrário, afirmava categoricamente que não havia perigo algum. Na verdade estava orgulhoso e eufórico com o experimento. Se bem sucedido, marcaria um novo passo nas viagens espaciais.

- Manda ver! - ordenei sem cerimônia.

O gerador foi acionado. Era curioso como emitia um som semelhante ao dos geradores de antimatéria dos antigos filmes de ficção científica dos anos 50, aqueles que Neonerd tanto gostava. Coincidência? Em se tratando do amigo talvez não. Teria que averiguar isso mais tarde. Neonerd tinha um senso de humor peculiar.

Porém, o som aumentou, e aumentou... Eu estava longe da engenharia, mas mesmo assim era ensurdecedor. E fazia a estrutura da nave tremer.

Algo definitivamente havia dado errado.

E para piorar a situação, vi no visor do meu painel Neonerd "grudado" ao gerador, como que atraído por um ímã gigante. E Descargas elétricas liberadas pela máquina o faziam estremecer. Apesar do barulho que invadia a nave, ouvi o doutor balbuciar palavras incompreensíveis pelo comunicador. Quanto tempo seu traje protetor ainda agüentaria?

- Desliguem essa droga! - ordenei aos seus auxiliares.

...

Horas depois, encontrei Neonerd na enfermaria. Ele parecia bem.

- Afinal, o que aconteceu? - perguntei.

- Não sei ao certo. Quando liguei o gerador senti como se estivesse entrando em outra dimensão! Mas aquele "universo" estava começando agora! Em segundos, assisti a um "big bang", à formação de um planeta e ao surgimento de uma forma de vida.

- Um ser antivivo?

- Sim. E ele sabia tudo o que sei. "Eles", porque se multiplicavam rapidamente. Eram iguais a mim, tinham a minha aparência. Mas estavam envoltos em chamas, apesar de não os consumirem... Não me tratavam como um deles. Era como se eu fosse um deus ou um demônio. Eu os havia criado.

- Vários "neonerds"? - ironizei, me arrependendo em seguida. Não era hora para brincadeiras - Por que você disse "demônio"?

- Aquela realidade era estranha - explicou. - O caos vencendo a ordem! Mas o mundo das criaturas, mesmo consumindo pelo fogo, apresentava estruturas ordenadas geometricamente. Cada ser parecia viver em um cubículo, movendo-se sistematicamente, repetitivamente. Todos iguais, em uma coletividade em constante crescimento. Um inferno burocraticamente regido.

A explicação não havia feito muito sentido. Mas não pedi maiores detalhes. Neonerd precisava descansar.

- Bem - disse, - se era tão ruim, então fizemos um favor a essas pobres vidas ao desligar o gerador.

- Não tenho certeza. Eles sabiam que se a máquina fosse desligada tudo aquilo desaparecera imediatamente. Suplicaram por suas existências, imploraram para que não desligássemos.

- Queriam viver aquele inferno real?

- Eu perguntei isso. Responderam que se o inferno era tudo o que podiam ter, aquele caos ardente seria como um paraíso para eles.